Para cuidar da nossa aldeinha digital

Introdução

Há um tempo atrás, eu li o livro Infocracia: Digitalização e a Crise da Democracia. Como esse é um livro que fala essencialmente sobre comunicação nas redes, eu pensei que faria sentido trazer pra cá um pouco do conteúdo dele pra discutirmos sobre.

Esse livro traz material para pensarmos nas mudanças que o consumo de informação tem trazido na sociedade, sobretudo na política. Para pensarmos sobre o monitoramento de dados, a manipulação digital, mudanças na cultura, a perda de uma realidade comum e uma crise da verdade.


Vigilância voluntária

Sendo um livro de filosofia, ele começa fazendo uma comparação entre a ideia de regime disciplinar, de Foucault e um regime informacional. Ele vai argumentar sobre como o regime disciplinar exerce poder em torno da ideia de submissão, enquanto o regime informacional promove poder a partir de uma falsa ideia de liberdade.

Cultura midiática

É feito um contraste também entre cultura livresca e midiática. Enquanto em uma cultura livresca, os debates eram mais longos e o tempo de concentração maior, em uma cultura midiática, tudo acontece em curto prazo e com pouca concentração.

Como a diversão e o entretenimento se tornam um grande negócio, os debates se tornam performance e não argumentação. Isso me faz pensar muito na estética atual que os debates têm na televisão e nas redes. Muitas pessoas, para se promoverem politicamente, usam de todo tipo de recurso gráfico, de música à repetição de ícones, em vez de um conteúdo sério, justo e formal; A gente vê, por exemplo, as críticas feitas ao Grande Debate, na CNN; a forma como as discussões entre o Biden e o Trump pareciam com a de duas crianças brigando; e a maneira como os enfrentamentos do Lula com o Bolsonaro renderam memes sobre Viagra e Picanha, mas não diálogos honestos sobre plano de governo.

Informação fragmentada

Nas redes, a informação é muito fragmentada. Muito do conteúdo ali entorpece as pessoas, colocando-as numa posição passiva, de sempre receber um dado e gerando uma falta de prioridade e foco.

Além disso, muito comumente, a chamada trabalha com o afeto das pessoas e não com a racionalidade. Com a capacidade delas de sentir e não de pensar. Do que tem de mais íntimo nelas, e não no que é objetivo.

Eu estava conversando com uma amiga esses dias e falávamos sobre como tem sido difícil ver discussões produtivas entre as pessoas. Parece que elas se aferram a um esquema de pensamento e não largam mais, e então se esforçam pra defender o esquema e não necessariamente chegar a uma verdade e a um acordo comum.

Bolhas

Algo que colabora muito pra isso acontecer é que hoje o mundo digital ocupa muito do nosso tempo e ele é todo trabalhado em personalização. Desse jeito, é como se cada pessoa tivesse acesso a uma realidade diferente. Vivemos em diferentes bolhas e isso nos torna vulneráveis, porque tende a aumentar o extremismo e levar à perda de uma fatia do mundo real.

Com isso, o que acontece é uma desaparição do outro. A gente vive hoje uma crise da escuta, que é, por consequência, uma crise da empatia.

As pessoas não se dão conta de como esse tipo de clima dá margem pra todo tipo de choque.

Como as pessoas se tornam cada vez mais sozinhas, com essa individualização, elas também acabam, em vez de se inserindo num espaço público, coletivo, geral, formando tribos. Nessas tribos, o mais importante da informação deixa de ser o saber e passa a ser a identidade.

Eu me identifico com isso, eu sou isso, em vez de "eu consumo isso", "eu acredito nisso", "eu sei disso". E se você se identifica e é uma coisa, você tende a ter a mesma visão simplista das outras pessoas. Então, uma pessoa que discorde não pode ser apenas uma pessoa que tem uma opinião contrária, ela necessariamente é um adversário.

As pessoas costumam, inclusive, passar por cima dos fatos pra defender essa identidade. Se algo vai de encontro com o ressentimento que elas têm em relação a algo, elas acreditam sem especular a respeito, verificar o fato, checar as fontes.

E nesse ponto, existe algo mais grave do que só a negação da verdade ou a mentira, mas a própria indiferença ao que é real.

A perda da verdade

Como as pessoas perdem os referenciais e a necessidade de compartilharem o mesmo espaço, elas se tornam paranoicas e a sociedade se torna uma sociedade da desconfiança.

A informação é aditiva e acumulativa, enquanto a verdade é narrativa e exclusiva. É na falta de narrativas que consigam explicar o que as pessoas vivem e nos ajudar a atravessar momentos de incerteza, que surgem as teorias da conspiração.

Sem a verdade, não existe democracia e por isso o livro diz que há uma crise democrática. A democracia é o único regime que legitima de forma central o conflito. Ela enxerga o conflito, que é real e que não deixa de existir por ser ignorado ou não ser comunicado.

Medidas

Pra mudar isso, é preciso retomar a escuta no dia a dia e encontrar pontos de confiança. Saber se quem diz algo tem autoridade quando fala sobre, se menciona fontes, é qualificado, se admite quando está errado e se existe algum ganho por trás.

É necessário ampliar a estrutura da informação, de uma maneira que fique muito claro pra qualquer um quando algo não é comprovado ou é falso. O algoritmo precisa ser reimaginado para não gerar a mesma polarização e não funcionar a base do mal-estar das pessoas.

É necessário banir contas falsas e robôs, que inflamam e distorcem o discurso, identificar conteúdos pagos e exigir mais transparência sobre como dados são usados, o quanto de informação falsa tem circulado e o que tem sido feito a respeito.

Do mais, é preciso que as pessoas não se deixem levar pelo ressentimento e pelo ódio e por maneiras simplistas de enxergar o mundo. O mundo não é preto e branco. Todo mundo tem limites de conhecimento e a gente só consegue enxergar mais longe com a ajuda de outros.

Tentemos selecionar de uma maneira ativa o que consumimos e nos aprofundar ao fazer isso, consultando várias fontes e conversando racionalmente sobre.

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