Se Eu Fosse eu
Escolhi para iniciar a publicação de vídeos no meu canal pessoal do Youtube a interpretação de um dos meus textos preferidos de Clarice Lispector, "Se eu fosse eu". Usei esse mesmo texto ao final de uma apresentação do Ensino Médio da disciplina de Língua Portuguesa e Literatura focado na autora e em seu conto "Amor".
Com "Se eu fosse eu", Clarice nos convida a pensar como seríamos e o que faríamos assumindo uma posição mais autêntica de nós mesmos. Uma vez que ser e estar no mundo é algo que ocorre com um base de condicionantes, vejo o texto como um potente estímulo para se pensar não somente naquilo que aprendemos socialmente, mas o que podemos ensinar e, para além disso, aquilo que sobre nós e sobre o mundo que devemos questionar.
"Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR.
E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser movida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida.
Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei.
Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro.
"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido.
No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teríamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos enfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais."
— Clarice Lispector
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