O amor não é abusivo (dormindo com o inimigo)
Ooi, pessoal! Tudo bom?
Há uns meses atrás, eu li um livro que gostaria de trazer pra vocês.
Relações Destrutivas foi escrito por Avery Neal, uma psicoterapeuta e comunicadora que trata especialmente sobre relacionamentos, bem-estar e abuso psicológico.
Segundo esse livro, quase metade de todos os homens e mulheres passam por abuso psicológico sem perceber. Esse livro trata sobre relações sutilmente abusivas, manipulação emocional, autovalorização e auto validação de sentimentos.
Quando eu comprei esse livro, eu estava procurando por algo que pudesse ser um apoio tangível pra esses tipos de relação, que conseguisse descrever de uma maneira concreta a experiência delas e o que fazer a respeito e acho que foi isso que eu encontrei.
Ele tem uma apresentação e é dividido em 7 capítulos
Fala sobre a identificação de um abuso, os padrões de abusadores, o perfil das pessoas que se relacionam com abusadores (é um livro direcionado especialmente pra mulheres, que são as maiores vítimas, mas serve pra ambos os gêneros), como terminar a relação, inclusive questões legais, filhos e o pós-fim, a cura de um relacionamento abusivo, o desenvolvimento do sentido de eu e como ajudar filhas (ou filhos).
Identificando o abuso
O abuso é um tratamento inadequado ou maus-tratos, sejam eles verbais, emocionais, psicológicos, financeiros, sexuais ou físicos, entre familiares, amigos ou parceiros românticos.
As pessoas não entram conscientemente em relacionamentos abusivos. O processo é lento e piora ao longo do tempo. Muitas vezes, as pessoas têm a ideia de que a vítima tem algum controle sobre o que aconteceu com ela, o que não é verdade. A ideia de que se houver amor o bastante, os problemas melhorem costuma ser perigosa, porque torna o abusador mais autorizado e a vítima mais inadequada e diminuída.
Geralmente abusadores não são cooperativos, são controladores, não assumem responsabilidade, tem dois pesos e duas medidas, menosprezam realizações e metas do outro e tentam isolá-lo, entre outras características.
Padrões de um abusador
Eles têm estratégias veladas de agir, que deixam a vítima confusa, como punições passivo-agressivas. Muitas vezes a vítima não sai da relação justamente por ser invalidada, ter medo de ser punida, e por lhe faltarem recursos e apoio com que contar.
A sensação de estar em uma relacionamento abusivo é a de andar pisando em ovos, ter que escolher o que fazer e o que dizer com muito cuidado, pra evitar situações que possam causar conflito. É como ter um medo crônico.
Eles causam distrações diante de temas importantes e usam controle e lógica pra defender os próprios pontos de vista e menosprezar o sentimento dos outros. Isso faz as vítimas se culparem por pensarem em si mesmas como irracionais. Aqui fica muito conhecido o termo “gaslighting”, quando o abusador faz a vítima duvidar de seu próprio juízo e sanidade.
Relações desse tipo funcionam em um morde-assopra. O parceiro pode ser ao mesmo tempo desdenhoso, degradante, crítico, cruel, e arrependido, atencioso, carinhoso e amoroso. O tipo de raciocínio que sustenta a união é a de que a versão boa dele é quem ele realmente é, de que ele se feriu com muita coisa e que a vítima o entende.
Elas são estendidas pela vergonha que a vítima sente em avaliar honestamente o relacionamento, o isolamento que ele gera e uma tendência a se distrair da angústia com trabalho, filhos ou qualquer coisa que alivie a sensação de impotência.
Abusadores não se importam em cooperar ou discutir pra resolver conflitos. Eles sabotam a intimidade, porque agem competitivamente, fazendo da relação um jogo de ganhar ou perder.
O perfil do parceiro(a) de um abusador
As pessoas que costumam ser vítimas desses relacionamentos geralmente são altamente responsáveis, altamente empáticas e evitam conflitos. Elas se acostumam a carregar o relacionamento nas costas, a serem muito compassivas e a se adaptarem em nome da harmonia. Abusadores são atraídos por vulnerabilidade e a manipulação dessas características garantem a manutenção do vínculo.
A diferença entre problemas de relacionamento comuns e o comportamento patológico vêm pela natureza dos conflitos e a resposta a eles. Em relacionamentos normais, as brigas não são motivadas sobretudo por poder. Os conflitos geram em ambos remorso e empatia, e após reconciliações as ações são coerentes com os discursos.
Em uma relação abusiva, tentativas de confronto efetivo são respondidas com punição. Em vez de gear um acordo, levam a afastamento e comportamentos hostis.
A dificuldade em terminar
Existe um certo julgamento para com as pessoas que ficam relacionamentos abusivos porque há pouca compreensão da complexidade em ir embora. Existem medos legítimos e riscos reais em contrariar um abusador.
Muitas vezes existe uma manipulação da compaixão, a qual a vítima é suscetível por genuinamente querer que fosse fácil resolver as coisas e pelo quanto foi investido na relação.
Quando existem filhos, há o medo da guarda das crianças ficar com o abusador. Eles convencem as vítimas de que elas são desequilibradas e que o tribunal estaria a seu favor.
Às vezes, há uma diferença entre os ganhos financeiros que cada um tem, o que é especialmente fragilizante para mulheres, que estatisticamente ganham menos e às vezes nem trabalham, pra cuidar dos filhos. Assim, elas ficam presas por pensarem que não terão recursos para sustentarem nem a si mesma e nem aos filhos.
Por fim, ainda há na nossa sociedade um estigma em relação a términos. Existe uma visão desanimadora de relacionamento fracassado e ninguém quer fracassar. Ninguém gosta de admitir que todo o tempo, energia, dinheiro e planejamento gastos numa relação resultam num fim desastroso.
A própria terapia de casal muitas vezes pode não funcionar bem. Ela pode ser abandonada quando o abusador for confrontado por um psicólogo sintonizado à dinâmica abusiva, ou então servir para que ele se torne ainda mais manipulativo.
O término
Independente de como for o fim, é preciso se preparar. Buscar informações legais para não se sentir intimidado por ameaças, documentar o máximo possível que tenha relação ao abusador, como data de violência e textos abusivos, terminar o relacionamento em um local público ou com outras pessoas ao redor e ter com quem contar logo após o episódio.
Após o término, tentar não reagir defensivamente e manter o foco. Conversar com os filhos sobre, afastar deles qualquer ideia de culpa sobre o acontecido, assim com qualquer sensação de rejeição ou de abandono. Ensinar sobre o que é um tratamento aceitável e o que não é, pra que saibam o que esperar de si mesmo e de outros. Quanto mais eles crescerem, menor será o papel do parceiro na vida deles.
Se os filhos se comportarem como o abusador, é essencial estabelecer limites e encontrar válvulas de escape saudáveis para lidar com a raiva.
A cura
A cura de um relacionamento abusivo é uma jornada. A vítima nunca deve ser culpada pelo que houve com ela. O que aconteceu não foi aceitável. A única parte a ser assumida é ter permitido ser tratado tão mal.
Ter conhecimento dos padrões abusivos previne a negação e recorrência. O autoconhecimento ajuda a se proteger.
O abuso é traumático, então é necessária uma grande dose de autocompaixão. O próprio corpo reage aos eventos experienciados, então é muito importante adotar também alguma técnica de relaxamento, que pode ser até mais eficiente do que uma compreensão lógica do que foi vivido.
Viver um relacionamento abusivo faz com que a pessoa se deixe de lado, então a autodescoberta também ganha um espaço privilegiado na recuperação. Da mesma maneira, é tempo de aprender a dizer não e estabelecer limites. Não é egoísta dizer não e quando eliminamos as pessoas e as coisas que não enriquecem nossa qualidade de vida, a gente se liberta e libera tempo para pessoas e coisas que realmente desejamos.
Outro ponto fundamental é perder o hábito de agir somente para ser querido ou evitar a desarmonia. Não é possível controlar os outros e a tentativa só gera estresse. As pessoas devem ser gostadas e respeitadas pelo que são.
Em um relacionamento saudável, os dois são livres pra falar e expressar opiniões e sentimentos sem medo de punição. Existe escuta e respeito em meio aos conflitos e trabalho pra solucionar os problemas. Relacionamentos longos, comprometidos e amorosos existem e se baseiam respeito mútuo.
Ajudando terceiros
Dentro de círculos familiares, é importante tomar providências, com muita comunicação, para que o padrão não seja repassado através da criação. Caso a relação aconteça com alguém próximo, é recomendado abordar o assunto de forma neutra para impedir a criação de barreiras, mantendo as linhas de suporte e diálogo abertas.
Uma possibilidade é falar de forma genérica sobre o que é ou não aceitável dentro de relacionamentos e perguntar e ouvir. Isso encoraja que a pessoa questione e enfrente o comportamento abusivo.
É muito duro ver alguém que amamos nessa posição, mas não podemos controlar as decisões dos outros, somente dar apoio e nos fortalecemos para que isso seja possível.
Beleza na dor
Ao final, se você passou por uma situação assim, pode se considerar um sobrevivente.
Embora acreditemos que as coisas ruins que acontecem conosco nos deixem temerosos, desconfiados e amargos, as pessoas que curam suas feridas se sentem mais forte por as terem. Querendo ou não, a dor nos obriga a crescer.
Assim como a flor de lótus floresce na lama, você emerge das profundezas do sofrimento com mais conhecimento, compaixão e força interior.
Deixo por aqui o site da Secretaria Nacional de Políticas para mulheres, que tem links importantes como a Lei Maria da Penha, Ligue 180, Programa “Mulher, viver se violência”, campanhas, publicações e pesquisas.
No portal Referência Nacional, é possível encontrar o site da polícia civil do seu estado. Existem delegacias especializadas, chamadas de Delegacia de Defesa da Mulher, que atendem especialmente vítimas de abuso.
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A gente se vê em alguma das minhas outras redes ou então na próxima publicação. Muito obrigado pela atenção e até a próxima.
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