O medo de ser insuficiente
Brené Brown é uma professora, pesquisadora norte-americana, palestrante, escritora e apresentadora, conhecida especialmente pela sua pesquisa sobre vergonha, vulnerabilidade e liderança.
Eu ouvi falar dela pela primeira vez em uma publicação do LinkedIn que o meu gestor da época havia curtido, com uma frase que eu anotei depois no meu caderninho de citações.
“Requer coragem dizer sim para o descanso em uma sociedade onde a exaustão é vista como símbolo de status.”
(Brené Brown)
Não é nenhum pouco incomum eu encontrar na minha vida casos de pessoas que estão de alguma forma sobrecarregadas pelas próprias rotinas. No meu trabalho anterior, houve menções a pessoas que tiveram burnout. Sobre como uma mulher, por exemplo, perdeu o controle e saiu de um edifício empresarial chorando uma vez.
A professora de longe mais dedicada que eu tive na minha faculdade é uma pessoa dócil, organizada e extremamente competente, que chegou a ter, em um momento da vida dela dedo em gatilho, uma lesão de esforço repetitivo em que o dedo fica preso nessa posição, como se estivesse no gatilho de uma arma. Ela contou pra turma que teve que fazer cerca de 60 sessões de fisioterapia pra se recuperar.
Meu irmão trabalha na polícia. Ele me contou sobre como um dos colegas de trabalho dele se suicidou com a pressão do trabalho, e sobre como a ideia de preocupação com saúde mental e atendimento psicológico não são de fato levadas a sério, pelo menos não pelo que ele viu na trajetória profissional, de quase 20 anos.
Eu tenho uma amiga que estuda na USP. Ela me conta sobre como ela olha ao redor e parece que, segundo as palavras dela, o processo da faculdade faz as pessoas se sentirem insuficientes e burras, e como todos ao redor tem algum problema com ansiedade ou depressão, de maneira generalizada.
Na minha faculdade, os alunos fizeram uma petição por atendimento psicossocial depois que um colega se suicidou.
Quando eu vejo figuras políticas falando sobre estigma e saúde mental, eu encontro outros recortes que mostram como essas realidades não são particulares. Elas envolvem a sociedade como um todo.
Quando eu vejo filósofos que se propõem a comunicar sobre o que eles veem no mundo de hoje, o que eu encontro é gente pensando que daqui a um tempo, vai todo mundo se drogar pra atravessar a vida. E pra ser bem sincero, como alguém com só 22 anos, eu não consigo achar nada disso normal, sabe?
E eu não acho que só terapia e acompanhamento psiquiátrico vão curar o tipo de ferida que a gente produz nesse nosso modelo de vida. Mais fundo do que isso, a gente precisava, de fato, de uma mudança cultural.
É sobre a compulsão das pessoas por desempenho, o medo e o perfeccionismo que o livro “A Coragem de Ser Imperfeito”, escrito por essa autora que mencionei no início desse vídeo, fala sobre.
Ela se formou como assistente social e considera a si mesma como uma pesquisadora de dados qualitativos, ou seja, nas palavras dela, uma contadora de histórias.
Ela acredita firmemente que a estamos aqui pra criar vínculos com as pessoas e que sem isso, a gente cai em sofrimento. Pra ela, uma pessoa plena cultiva:
- a autenticidade, livre do julgamento maldoso de outras pessoas;
- a autocompaixão, livre do perfeccionismo;
- um espírito flexível, livre da monotonia e da impotência;
- a intuição e a fé, livre da necessidade de certezas;
- a criatividade, livre das comparações;
- o descanso, livre da exaustão como símbolo de status e produtividade;
- a calma e a tranquilidade, livre da ansiedade como um estilo de vida
- as tarefas relevantes, livre de dúvidas e suposições; e
- o lazer, livre da indiferença e da necessidade de estar sempre no controle de tudo
A vulnerabilidade é justamente o centro das nossas experiências significativas. A gente é acostumado a um modelo de desenvolvimento que foca e avalia no primeiro plano o que as pessoas performam ou desempenham e não quem elas são. Só que o que uma pessoa é, na verdade, importa muito mais do que o que ela faz ou sabe. Você pode ter pessoas tecnicamente brilhantes, mas antiéticas. Inteligentes, mas pouco sábias. Que tem todos os instrumentos, mas nenhuma iniciativa. Que são persuasivas, mas sem caráter.
1 A cultura de insuficiência
Essa sensação de não ser bom o bastante não é algo individual, é uma cultura. Esse livro elenca alguns estudos sobre o crescimento do narcisismo nas últimas décadas. É aquela história que a gente já conhece, o mundo ficando mais violento, as pessoas se expondo cada vez mais e os nossos ideais de sucesso indo pra lugares bem controversos.
O que nem sempre é visto é que muitas vezes o narcisismo está bastante conectado ao medo da humilhação. O livro chama atenção pra como as pessoas comumente sentem medo de serem invisíveis. De não serem boas o suficiente pra serem notadas, amadas, lembradas, aceitas ou capazes de perseguir um objetivo. É como se a gente tivesse cada vez mais uma mensagem subliminar de que uma vida comum é uma vida que não tem sentido. A gente assiste reality shows, cultua celebridades e mostra só o que seriam nossas “melhores versões” nas redes sociais — que, vale lembrar, às vezes não são nem versões de verdade.
A gente vive num mundo feito pra gente achar que nunca está bom o bastante. A gente sempre precisa de mais alguma coisa. E eu não acho que isso seja só um vazio interior humano, natural, eu acho que é um modelo de comportamento, mesmo. Nós nos fizemos hiperconscientes da falta, porque ela distrai a gente de um tipo de contato interior que se tornou estranho pela nossa compulsão por explorar o mundo. Isso tudo nos faz sentir mais vergonha, nos comparar mais uns com os outros e nos deixa desmotivados.
2 Derrubando mitos sobre vulnerabilidade
Um dos mitos que a gente nutre sobre vulnerabilidade é que vulnerabilidade é fraqueza. Só que ser vulnerável é, por exemplo:
- Pedir ajuda
- Dizer não
- Admitir que tem um limite
- Telefonar pra um amigo cujo filho acabou de morrer
- Ser o primeiro a dizer “Eu te amo”, sem saber se a declaração vai ser retribuída
- Mostrar alguma criação artística pro mundo
- Ser promovido e não saber se vai ter sucesso no novo cargo
- Ser demitido
- Assumir o risco de começar o próprio negócio
- Se apaixonar
- Tentar algo novo
- Admitir que sente medo
- Pedir perdão
- Ter fé
Todas essas coisas, na verdade, precisam contar com uma boa dose de coragem. Elas precisam de responsabilidade e verdade pra acontecer. É o enfrentamento de incertezas.
Nem sempre a gente tá acostumado a ter contatos profundos com as pessoas, então nem sempre a gente sabe pelo que elas passam e quão inadequadas elas se sentem. A gente tem uma consciência muito maior sobre o nosso próprio senso de inadequação do que o senso de inadequação das outras pessoas.
É por isso que muitas vezes a gente as aprecia sendo vulneráveis, apresentando algo, se expondo, mas nos sentimos reticentes da gente fazendo o mesmo.
Outro mito é a de que a vulnerabilidade não é algo para qualquer um. A ideia de que a sua profissão, a sua posição, o seu papel social não pode te tornar vulnerável. Advogados podem ser vulneráveis, líderes podem ser vulneráveis, autoridades podem ser vulneráveis, homens podem ser vulneráveis, porque eles são pessoas. Ser vulnerável é estar vivo.
Quando a gente finge que pode evitar ser vulnerável, assumir riscos, muitas vezes nos tornamos pessoas que não somos e que nem desejamos ser.
Outro engano sobre esse tema é que ser vulnerável é expor totalmente a própria vida. Ser vulnerável é partilhar adequadamente sentimentos com aqueles com quem nos relacionamos e que querem fazer parte da nossa história.
A construção de confiança é um processo lento. O livro tem uma metáfora muito fofa, que diz que construir confiança é ir enchendo um pote de bolinhas de gude, uma de cada vez. Cada atitude que desperte confiança é uma peça num esquema maior que nos permite realmente acreditar e compartilhar.
Sabe aquela ideia de que as pessoas nos ganham e nos perdem nos detalhes? É isso. Existe um tipo de traição anterior a muitas outras e ainda mais desleal que elas: a de não se importar. De desfazer o vínculo. A de não dedicar tempo e esforço a um relacionamento. É o que a gente chama de descompromisso.
Por fim, outra ideia equivocada é a de “Eu me garanto sozinho”. Todo mundo precisa de apoio. A gente precisa de ajuda pra trilhar nossos caminhos. É preciso não só fornecer, mas também saber pedir ajuda. E a coragem de fazer isso, de contar com outros, gera conexão. Acaba sendo contagiosa.
Quando um líder, por exemplo, se demonstra vulnerável, ele torna mais suave pra equipe a ideia de que ela também pode ser, num processo de aprendizagem que envolve a equipe inteira.
Quando a gente é amado, a gente é amado pelas nossas vulnerabilidades e não apesar delas.
As pessoas que nos amam não são aquelas que apontam o dedo onde fracassamos, nem as que estão na arquibancada assistindo. São as que estão na arena, lutando pela gente e segurando as nossas mãos. Isso é processo. Independe do resultado.
3 Compreendendo e combatendo a vergonha
A gente precisa aprender a desconectar o que a gente produz com o nosso senso de valor. O que a gente faz é importante, mas não pode estar diretamente atrelado à nossa autoestima. A aprovação social não pode pôr a nossa autoestima em jogo, porque é algo que simplesmente tá fora do nosso controle.
O problema de se envergonhar é que a vergonha se torna medo, o medo se torna aversão ao risco e a aversão ao risco mata a originalidade e a inovação.
Nesse sentido, é importante ter resiliência e empatia. Ser capaz de assumir a própria história, assim você deixa de ser o que aconteceu com você e passa a ter um foco maior nas escolhas que você faz se tornando quem é.
O livro fala ainda sobre diferenças de gênero em relação à vergonha. Sobre como mulheres podem ser constrangidas por alguns ideias em relação à juventude, à aparência, à maternidade e a necessidade de desempenhar vários papeis.
Do outro lado, os homens também tem uma mensagem muito dura pra não serem considerados fracos. E isso é um ponto bem delicado a pesquisa da Brené, porque existe uma contradição.
Existe essa ideia de que é solicitado dos homens uma mudança, uma transparência, uma fluidez emocional maior, mas, na maioria das vezes, as mulheres ainda não suportam essa barra. Ela dá exemplos no livro de como mulheres podem, na verdade, entrar em pânico quando homens são vulneráveis, exatamente porque isso não é o esperado.
Muitas vezes a resposta masculina é ou a raiva, ou a retração. Essa falta de permissão pra demonstrar medo e angústia é uma tecla que muita gente bate. É importante lembrarmos que o maior número de suicídios atualmente é justamente de homens.
A rejeição sexual também é um marca registrada da vergonha masculina. Como homens aprendem que a iniciativa no sexo é responsabilidade deles, eles tendem a ser mais sensíveis a respeito disso. A argumentação vincula isso, inclusive, ao vício em pornografia e à violência, que seria um jeito de reagir ao medo, numa tentativa de exercer poder e controle.
Nossos ideais de masculinidade caminham por lugares de agressividade e frieza. Eu lembro que na faculdade uma das minhas professoras dizia que homens eram melhores do que mulheres em posições de liderança porque eram menos emocionais. Na minha opinião, de outra perspectiva, mulheres poderiam ser melhores justamente por estarem mais dadas a certa flexibilidade no trato com as pessoas.
É um símbolo da capacidade analítica, por exemplo, ser capaz de demitir facilmente um grande número de pessoas. Isso pra mim pode ser estratégico, mas não é por si só algo louvável. Na verdade, eu acho que se sentir mal por ter que fazer uma demissão em massa é muito mais plausível, admirável e humano do que não sentir nada. Isso, na verdade, fala muito sobre os valores que a gente tá cultivando em sociedade nesse momento, e o que a gente se acostumou a achar bom.
Sobre autenticidade, há uma passagem no livro que eu achei muito fofa, falando sobre sabermos que somos amados.
4 - Arsenal contra a vulnerabilidade
Outra ideia relevante que o livro traz é sobre maneiras de autos sabotagem envolvidas nesse processo de se reconhecer vulnerável.
Uma delas é ter a alegria como um mau presságio. Em vez da pessoa ficar feliz e grata que está tudo bem na vida, no trabalho, no relacionamento dela, ela fica procurando o jeito pelo qual as coisas logo, logo vão dar errado. Isso é um jeito ansioso dela se proteger contra o que ela acha que pode atingir ela, ficando na defensiva. Só que isso coloca ela num estado permanente de alerta, e qual o sentido, então, de ter coisas boas, se você sempre vai achar que elas são boas demais pra serem de verdade?
Um antídoto pra isso é entender que a alegria nos encontra em momentos comuns. Você não precisa de momentos extraordinários ou totalmente foras da rotina pra ficar feliz. Você pode ser grato pelo que tem e perceber o quão inútil é se preparar pra tragédia e a perda. É quando a gente aceita a alegria, que a gente cultiva esperança e esperança, sim, é o que a gente precisa pra enfrentar os momentos ruins, e não medo.
Outro problema é o problema do perfeccionismo. Achar que se você sempre for o mais ideal ou perfeito, você vai estar protegido da falha. A única coisa que isso provoca é uma atitude das pessoas de fazerem um contorcionismo pra serem diferentes do que realmente são.
Por fim, um terceiro escudo seria o entorpecimento. Estar sempre ocupado com algo é a principal forma pela qual a gente ignora sentimentos desconfortáveis que precisavam ser abordados. Só que entorpecendo a escuridão, a gente também entorpece a luz. As pessoas ficam mais endividadas, obesas, dependentes de remédios e viciadas. Nesses casos, é preciso identificar a fonte da ansiedade, que geralmente tá relacionada a ideais irrealista e falta de conexão autêntica com as pessoas e as atividades que desempenha. Nós precisamos de cuidado e precisamos de vínculo.
Aqui também é posta uma ideia que achei bem elaborada: Quando a gente para de se importar com o que as pessoas pensam, perdemos a capacidade de criar vínculos. É algo que eu sempre pensei, de fato, como essa ideia de ignorar o que os outros pensam é contraditória. A gente vive em sociedade e as pessoas ao nosso redor muito nos acrescentam. E eu acho que, muito pelo contrário, o caminho pra uma sociedade melhor e mais justa está em empatia e empatia significa se conectar mais, e não menos, com as outras pessoas.
Em sequência, é dito que “Quando somos moldados pelo que as pessoas pensam, perdemos a vontade de ser vulneráveis”. É possível que a gente entre em contato com o outro sem se perder nesse caminho. Como um filtro, sabe? Absorve o que faz bem e deixa de fora o que é prejudicial. Não se tratar de ignorar a opinião alheia ou fazer menos dos outros, mas de ter bom senso, e lembrar, no fim de tudo, que o exterior não pode te controlar, ao menos não no quesito de escolha final, mesmo que sempre soframos várias influências.
5 - Um caminho de reumanização
Por fim, o livro fala da nossa necessidade de reconhecer nossas motivações verdadeiras, que muitas vezes estão longe das principais motivações sociais de hoje em dia e em pensar alternativas pra humanizar a educação e o trabalho.
As pessoas têm muitas lembranças de vezes que se sentiram constrangidas em seus ambientes escolares e isso costuma sufocar o interesse delas em serem mais ousadas e criativas. Existe uma menção no livro de o caso de um gestor que usava a vergonha pra “criar caráter” na equipe, separando as pessoas conforme o desempenho. Esse tipo de prática é coação. O que ela faz de verdade é desmotivar as pessoas e quando as pessoas estão desmotivadas o que elas tendem a fazer é empurrar as coisas com a barriga e agirem de maneira antiética.
Pra apontar pra uma outra direção, são estruturadas aqui maneiras saudáveis de se fazer um feedback e assumir responsabilidades, sempre valorizando a honestidade, já que um sistema que cobra muito das pessoas geralmente faz com que elas escondam ou até mesmo mintam sobre informações importantes.
É importante que a gente saiba lidar com incertezas e estimular o crescimento das outras pessoas. A humanização nos aproxima dos nossos talentos, das nossas ideias e, principalmente, das nossas paixões.
Ao lidar com crianças, é ainda mais importante ter um tato especial pra essa questão, porque somos seres biológicos e muitas coisas estão atreladas inconscientemente ao nosso senso de sobrevivência. A gente precisa tomar cuidado pra não enviar para as nossas crianças a mensagem de que elas só vão ser amadas se atingirem um certo ideal ou de que elas são fundamentalmente más por cometerem erros.
6 - Reflexões finais
Não é sobre se encaixar, mas sobre se aceito. Não é sobre se tornar quem você precisa se tornar pra se inserir numa situação, mas, ao contrário disso, ser exatamente quem você é e ser acolhido precisamente por isso, crescer a partir e não apesar disso.
É um bom livro de autoajuda e eu recomendo pra pensar um pouco mais sobre a maneira como a gente se desenvolve em relação aos outros. A gente tem tantas mensagens indo pra lugares tão contraprodutivos que eu acho muito importante disseminar uma outra visão, cultivar uma outra perspectiva no meio disso – e compartilhar com quem quiser acompanhar a gente nessa maneira de enxergar e agir sobre as coisas.
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