Em defesa dos quietos


Apresentação

Ooi, pessoal

Quero muito falar com vocês sobre uma das minhas últimas leituras.

Há pouco tempo, eu li o livro O Poder dos Quietos, da escritora e conferencista norte-americana Susan Cain, sobre introversão. Nesse livro, ela argumenta que a cultura ocidental moderna não compreende e subestima as qualidades das pessoas introvertidas, e eu, sendo eu mesmo uma pessoa introvertida, concordo muito com ela.


Ela começa contando um episódio em que Rosa Parks, uma cidadã estadunidense negra se recusa a ceder para um homem branco seu assento de uma fileira de bancos reservados para negros num ônibus em uma noite em Montgomery, no Alabama, nos Estados Unidos. Ela é presa por um policial e isso desencadeia um protesto com 5 mil pessoas a seu favor em uma igreja na região mais pobre da cidade. Nesse protesto, Martin Luther King Jr. fez um discurso elogiando a coragem de Rosa e lhe deu um abraço. Houve um boicote na cidade aos ônibus durante 381 dias: as pessoas iam a pé ao trabalho, pegavam carona, mas não pegavam mais ônibus, e isso mudou a história dos Estados Unidos.

Quando essa moça morreu em 2005, com 92 anos, ela foi descrita nos obituários como alguém manso, de fala firme. Uma pessoa dócil, tímida, reservada, de baixa estatura com a coragem de uma leoa. As frases que a descreviam apresentavam antíteses, que é essa figura de linguagem quando termos se contrapõem: ela era apresentada tendo uma “humildade radical” e uma “bravura quieta”, questionando implicitamente como uma pessoa pode ser tímida e ainda assim corajosa.

O nome da autobiografia dela é Quiet Strenght, Força silenciosa, o que nos desafia a questionar: por que o quieto não deveria ser forte? Como a gente enxerga o que é silencioso?

Norte e sul do temperamento

Um dos aspectos mais importantes da personalidade é o que chamamos de norte e sul do temperamento, que é onde nos localizamos no espectro introversão-extroversão. Esse agrupamento, sozinho, indica a tendência de uma pessoa a funcionar bem sem dormir, fazer grandes apostas no mercado de ações, adiar gratificações, ser uma boa liderança sob condições particulares e elaborar hipóteses.

Nesse exemplo da Rose e do Luther King, há uma parceria entre esses dois extremos, ela uma pessoa discreta e ele um formidável orador. Entretanto, hoje em dia, só um lado dessa união tende a ser valorizado. A gente passa a vida escutando que pra ser bem-sucedido precisamos ser sociáveis. A introversão não raramente é tratada com um traço de segunda classe, entre a decepção e a patologia.

O que esse livro argumenta é que a extroversão é um estilo de personalidade atraente, mas que foi transformado em um padrão opressivo que a maioria das pessoas acha que tem que seguir.

Algumas de nossas maiores ideias, obras de arte e invenções vieram de pessoas quietas e cerebrais que sabiam se comunicar com seus mundos interiores.

Isaac Newton, Albert Einstein, George Orwell, Theodor Geisel, Steven Spielberg são alguns dos nomes que poderiam se mencionados. Outras conquistas nos campos do ativismo, finanças e política foram feitas por, por exemplo, Eleanor Roosevelt, Warren Buffet e Gandhi, não “apesar de”, mas precisamente, por causa da introversão.

Vivemos em um mundo em que os protagonistas de séries de TV são muitas vezes estrelas extrovertidas, em que salas de aulas encorajam o aprendizado em grupo e empresas esperam que as pessoas avancem em suas carreiras se autopromovendo de maneira descarada. Cientistas precisam demonstrar confiança para obter investimento, às vezes até mais do que resultados e autores e aspirantes a artistas são avaliados para assegurar nem sempre seus talentos, mas a capacidade de engajar audiência.

Se você é um introvertido, talvez seus pais tenham se desculpado pela sua timidez. Você provavelmente foi estimulado pela escola a sair da própria concha e pode mesmo ter sido taxado de preguiçoso, lento ou chato.

Costumam dizer que introvertidos ficam tempo demais dentro das próprias cabeças. A gente tem um nome pra pessoas assim: pensadores.

Muitas vezes essas pessoas são as que conseguem manter a calma em uma negociação, sendo ao mesmo tempo cordiais e firmes.

Infelizmente, a introversão tende a ser vista não em termos de uma rica vida interior, mas pela falta de qualidades como confiança e sociabilidade.

Uma diferença central entre introvertidos e extrovertidos é a quantidade de estímulos externos que precisam pra funcionar bem. Introvertidos precisam de menos estímulos, enquanto extrovertidos gostam de uma vibração extra.

Extrovertidos tendem a terminar as tarefas rapidamente, são mais hedonistas e impulsivos, enquanto introvertidos muitas vezes são mais lentos e ponderados. Eles gostam de focar em uma tarefa de cada vez e são muito concentrados, além de menos tentados pelos prazeres momentâneos.

Timidez Vs. Introversão

Uma confusão muito comum é feita entre os conceitos de timidez e introversão. A timidez é o medo da desaprovação social e da humilhação, enquanto a introversão é a preferência por ambientes menos estimulantes. Assim, a timidez é inerentemente dolorosa, enquanto a introversão não. A timidez é uma disfunção comunicativa, enquanto a introversão é uma marca de temperamento. Uma pessoa introvertida, então, pode ou não ser considerada tímida.

Alta sensibilidade

Muitas pessoas introvertidas são, além disso, altamente sensíveis, tendo forte consciência e empatia e uma recepção mais intensa à beleza e à agressividade.

Independentemente do seu perfil, conhecer mais sobre o universo dos introvertidos pode ser de muita valia.

Um dos objetivos principais desse livro é esclarecer que todos têm o direito de ser como são.

O Ideal da Extroversão

Com o a ascensão da indústria e o avanço da urbanização no século XX, o Ocidente, em especial os Estados Unidos, passou por uma grande mudança cultural. Se anteriormente o caráter ideal era o de alguém sério, disciplinado e respeitável, e a reputação das pessoas estavam mais arraigados em razões familiares, no mundo cada vez mais anônimo dos negócios, as pessoas passaram a valorizar mais a impressão que causavam em público do que a atitude na esfera privada e a se vender como poderosas e simpáticas.

É o que o historiador de cultura Warren Susman chamou de mudança do Culto ao Caráter para o Culto à Personalidade. Isso transformou quem somos e quem admiramos, como agimos em entrevistas de emprego, o que procuramos em funcionários, como cortejamos parceiros e criamos filhos.

Durante os séculos XVII, XVIII e XIX, os antigos guias de conduta advertiam as pessoas a se comportarem com austeridade para alcançar os reinos dos céus. A modéstia era exaltada como um valor e pessoas comuns de alta moral eram celebradas. Pra ter uma ideia, em 1899, um manual chamado Character: The Grandest Thing in the World, "Caráter: A maior coisa do mundo", contava a história de uma tímida balconista que abriu mão do seu pouco salário pra ajudar um mendigo que estava morrendo de frio e fugiu pra que ninguém soubesse o que ela fez. A virtude ela era não só a generosidade, mas o desejo pelo anonimato.

Corta pra 1920, os manuais de autoajuda mudaram da vida interior pro encantamento exterior. “Saber o quê e como falar”, porque “Criar uma personalidade é ter poder”. A própria propaganda começou a explorar essa sensibilidade. Vocês com certeza devem lembrar de alguma revista capricho dando dicas de sedução.

As ansiedades sociais, que adivinhem vocês, são estimuladas por esse tipo de mensagem, foram indiscriminadamente taxadas de complexos psicológicos, como por exemplo complexo de inferioridade. De acordo com um artigo de 1939 da Collier’s, Lincoln, Napoleão, Theodore Roosevelt, Edison e Shakespeare sofriam todos de Complexo de Inferioridade.

Como as pessoas são preparadas para o ambiente corporativo e o ambiente corporativo passou a demandar extroversão, até profissões marcadas pela presença de pessoas de perfil mais observador e analítico foram contaminadas pela ideia de sociabilidade. Um cientista não precisa só pesquisar, mas ter traquejo social pra vender a pesquisa.

Algo interessante, associado a isso, é que a partir de 1955, com um mercado de trabalho altamente competitivo e exigente, os ansiolíticos tiveram alta nas vendas com campanhas publicitárias que recomendavam o uso para combater ansiedades advindas de inadequação.

Aulas, palestras, workshops, guias, faculdades: todas essas estruturas são utilizadas para que pessoas possam comunicar melhor de uma visão geral. O que muitas vezes é deixado pra trás é que valorizamos demais a apresentação e não o suficiente a substância e o pensamento crítico.

Eu já cheguei a ouvir, mais de uma vez, que Hittler era um bom comunicador. E é interessante observar esse tipo de pensamento, porque ele implicitamente diz que o que consideramos um bom comunicador é puramente aquele capaz de falar com muitos, mas não necessariamente alguém que tenha uma mensagem boa ou verdadeira a ser transmitida. É como se tivéssemos descolado o conteúdo da apresentação, o que faz com que comunicação seja sobre atenção e não sobre, propriamente, transmitir um conhecimento ou tornar algo comum. É por esse mesmo motivo que a gente vê tanta coisa sensacionalista hoje em dia: a gente se deixar levar e dá audiência pro que é polêmico e não pro que é útil, produtivo e coeso.

E sabe o que é mais curioso? O resultado de algumas pesquisas sobre liderança contrariam o senso comum nesse sentido. Muitos líderes bem-sucedidos são, na verdade, introvertidos. São pessoas focadas que constroem não o próprio ego, mas a instituição que administram.

Enquanto líderes extrovertidos se dão bem com equipes mais passivas e submissas, líderes introvertidos lideram bem times mais ativos, porque estimulam a participação.

Introvertidos, muito embora prefiram grupos menores para interagir na vida real, são também os mais propensos a expressar na Internet fatos mais íntimos ou a ter blogs ou canais onde comuniquem pra milhares ou milhões de pessoas.

Isso acontece, inclusive, pra reivindicar práticas mais solitárias. Adam McHugh, um pastor evangélico, é um introvertido declarado que criou um blog para enfatizar práticas religiosas de solidão e contemplação e depois escreveu um livro chamado Introverts in the Church: Finding our Place in an Extroverted Culture ("Introvertidos na Igreja: Encontrando nosso lugar em uma cultura de extroversão").

Outra descoberta interessante está relacionada à criatividade. Pessoas mais criativas tendem a ser socialmente classificada como introvertidas. Tem habilidades sociais, mas não são particularmente sociáveis e participativas. Geralmente se descrevem independentes e individualistas e quando adolescentes, foram tímidas e solitárias.

A liderança se aplica não apenas a situações sociais, mas também solitárias, como desenvolvimento de novas técnicas artísticas, criação de novas filosofias, escrita de livros profundos e inovação científica.

Sozinhos, identificamos melhor tarefas e conhecimentos fora de alcance, monitoramos progresso e nos corrigimos de acordo com isso. O excesso de estímulo, por outro lado, parece dificultar o aprendizado.

Além disso, existe uma questão de conformidade. Quando estamos em grupo, tendemos a modificar nossa visão sobre os problemas. De acordo com um teste descrito no livro, o grupo não apenas intimida cada indivíduo, gerando uma pressão por conformidade, como também altera, e isso neurologicamente, a própria visão do tema sendo tratado.

Biologia e personalidade

Como temperamento, a introversão é um padrão dado biologicamente, observado já em bebês na primeira infância. Por outro lado, o que chamamos de personalidade é uma combinação complexa que emerge depois de a influência cultural e as experiências pessoais entrarem em campo.

Os bebês mais reativos a estímulos, isso é, os que mais se incomodam com o excesso deles, são os que tendem a crescer introvertidos; e os mais calmos e indiferentes, que são menos sensíveis, tendem a crescer extrovertidos.

No mundo animal, a introversão e a extroversão oferecerem de maneiras diferentes suporte para a sobrevivência. Em ambientes com mais predadores, por exemplo, uma mesma espécie de peixes pode deixar descendentes mais reservados e inibidos, enquanto tem uma evolução para indivíduos mais descontraídos e brincalhões em regiões mais pacíficas.

A introversão e a extroversão podem determinar que peixes podem parar na rede e quais, mais reticentes, escapar dela.

Qual é, então, o papel do livre-arbítrio?

O que pesquisas sugerem é que podemos modificar nossas personalidades, mas só até certo ponto. A isso, dá-se o nome “teoria do elástico” da personalidade. Somos como elásticos em repouso. Podemos esticar, mas só até certo ponto.

O ideal é que as pessoas busquem por níveis de estímulo que se adequem bem à própria personalidade. Isso as torna mais eficientes com suas tarefas, porque permite equilibrar o quanto sentem de prazer ou tédio durante a execução.

Se for necessário superar esse equilíbrio, o recomendado então é que o desconforto seja administrado em pequenas doses, como quando pessoas são tratadas pra lidar com fobias, sabe? A introversão e a extroversão também estão relacionadas às amígdalas cerebrais, reunidas no que chamamos de sistema límbico ou cérebro emocional.

Para pessoas introvertidas, a motivação é um fator diferencial. Quando postas em um campo em que precisam se expressar com frequência, é essencial que tenham interesse no assunto abordado, pois isso fornece mais energia e confiança.

Pessoas introvertidas costumam ter uma profundidade e complexidade incomuns. Elas tendem a ter uma orientação filosófica ou espiritual em vez de serem materialistas ou hedonistas, e muitas vezes são pessoas altamente empáticas.

Eleanor Roosevelt, considerada uma grande ativista diplomata do século XX, é apresentada aqui, por isso, como uma ótima parceira na trajetória política de seu marido Franklin D. Roosevelt. Ela fornecia a ele importantes diagnósticos sobre causas sociais importantes e diferentes necessidades do país.

O processamento de dopamina ocorre diferentemente entre introvertidos e extrovertidos também. Enquanto extrovertidos tendem a ser naturalmente mais sensíveis à recompensa, introvertidos são mais hábeis em adiar a gratificação. É por essa razão que se torna mais comum presença de pessoas extrovertidas com grandes ambições econômicas e políticas.

Isso pode se demonstrar especialmente perigoso com grandes apostas. É o que acontece, por exemplo, no mercado financeiro. A cultura corporativa, que atribui tanta importância a uma apresentação persuasiva, pode negligenciar chamados ao bom senso que poderiam evitar crises.

Introvertidos costumam ser melhores com a visão geral de uma atividade, enquanto extrovertidos são melhores em mergulhar dentro delas. Assim, extrovertidos lidam melhor com o que é eminente, enquanto introvertidos são bons em elaborar alternativas.

Marcas culturais

Se a introversão e a extroversão são dadas naturalmente, a forma como lidamos culturalmente varia de povo para povo. Os orientais são conhecidos por terem um perfil mais retraído e até por isso buscam maneira de se adaptar quando estão em culturas mais expansivas, às vezes até mantendo trabalho próximo à região de origem, por haver uma visão tão geral de que a apresentação é uma prioridade irremediável.

A Ásia tem seus próprios conceitos sobre soft power, que seria a capacidade de modelar o desejo dos outros, ou atrair pelo exemplo, isso é, um poder de influência. É o que chamam de “liderança pela água em vez do fogo”. A persistência silenciosa é uma estratégia encontrada na biografia de figuras muito conhecidas, como Madre Teresa, Buda e Gandhi.

Profissionalmente, é um traço muito conectado ao bom desempenho acadêmico e áreas de comunicação, como o jornalismo, em que é preciso ter escuta apurada e muita organização.

Amor e trabalho

Em se tratando de amor, introvertidos e extrovertidos são bastante complementares. Introvertidos, por serem menos enérgicos e mais sensíveis, tendem a deixar os outros mais à vontade para desabafar e dissipam uma certa necessidade social de performar alegria. Por outro lado, extrovertidos deixam as coisas mais leves e divertidas.

Um cuidado especial deve ser dado à resolução de conflitos entre pessoas com diferentes perfis: enquanto introvertidos podem tentar se desviar de uma discussão, extrovertidos costumam ler a retração como desinteresse. Isso é ruim porque represa emoções de um lado e dificulta uma comunicação efetiva. Nesses casos, é necessário que pessoas extrovertidas evitem abordagens muito estressoras e que introvertidos assumam e se posicionem com firmeza diante de desentendimentos.

Quanto às dificuldades de viver em rotinas agitadas e cheias de expressão, é bom que introvertidos saibam que está tudo bem agir fora do caráter em algumas circunstâncias e, em troca, serem autênticos no restante do tempo, sempre com uma boa motivação por trás.

Encerramento

Pra encerrar, o livro traz uma frase muito boa que diz: “O truque não é ter todos os tipos de poderes disponível, mas usar bem os que você recebeu.”, o que se aplica muito bem à ideia geral de todo o texto.

A introversão é um jeito de funcionar diferente, com muitas qualidades, e com muito a agregar na nossa sonora sociedade.

E você? Se considera mais extrovertido ou introvertido? O que pensa sobre e como costuma lidar com isso?

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A gente se vê por aqui ou então em qualquer outra das minhas redes sociais. Boas interações com o mundo e tchau, tchau!

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