Eternamente Responsável
"Palavra parece gente. Não tem sinônimo que dê conta de uma diferença muito especial que é própria de cada uma delas."
"No momento eu não soube compreender. Devia tê-la julgado por seus atos e não por suas palavras. Ela me perfumava e me iluminava. Eu nunca devia ter fugido! Devia ter adivinhado sua ternura por trás de suas pobres artimanhas. As flores são tão contraditórias! Mas eu era jovem demais para saber amá-la."
"– Ah! Estrelas?– Isso, isso mesmo. Estrelas.– E o que faz com quinhentos milhões de estrelas?– Quinhentos e um milhões, seiscentos e vinte e dois mil, setecentos e trinta e um. Eu, eu sou sério, sou exato.– E o que você faz com essas estrelas?– O que faço?– Sim.– Nada. Possuo as estrelas.– Você possui as estrelas?– Sim.– Mas já vi um rei que…– Os reis não possuem. Eles “reinam” sobre. É muito diferente.– E para que serve possuir estrelas?– Serve para ser rico.– E para que ser rico?– Para comprar outras estrelas, se alguém encontrar."Este" disse o pequeno príncipe consigo mesmo, "raciocina um pouco parecido com meu bêbado".No entanto, ele fez mais perguntas:– Como se podem possuir as estrelas?– De quem são elas? – replicou o homem de negócios, ranzinza.– Não sei. De ninguém.– Então são minhas, pois pensei nisso primeiro."
"As ordens não mudaram — disse o acendedor. — Este é o drama! O planeta tem girado cada vez mais rápido, de ano em ano, e as ordens não mudaram."
Acredito que esse diálogo possa estar fazendo cada vez mais sentido à medida que o desenvolvimento tecnológico acontece. Embora as atividades se tornem cada vez mais automatizadas, não descansamos mais. Pelo contrário, o avanço técnico traz também um aumento da pressão produtiva: se agora o conhecimento e os instrumentos são mais acessíveis, o padrão de qualidade se tornou mais rígido e a expectativa de entrega maior. É bizarro observar que, no lugar de possibilitar tornar o homem mais humano, esse avanço, não raro, o torna mais próximo aos objetos mecânicos que manipula.
Solidão contemporânea
"— Onde estão os homens? — por fim retomou o pequeno príncipe. — É um pouco solitário no deserto...
— É solitário também entre os homens — disse a serpente."
Um dos temas mais retomados ao se tratar de Pequeno Príncipe são as relações interpessoais, englobando a consolidação de vínculos e a responsabilidade afetiva. Mais uma vez bastante atual, alguns trechos me recordam justamente a mensagem encerrada na música Modern Loneliness, de Lauv:
Quão comum a ideia de "rodeado, porém solitário". Muito das dinâmica das relações também está baseada em consumo — em como podemos e quais de nós podemos nos mover em direção ao que está socialmente colocado. Ideias de que as relações estão líquidas, que são mais superficiais, que o networking está matando a amizade, também compõem uma análise frequente em nosso tempo.
Laços
"Você, para mim, ainda não passa de um menino igual a cem mil meninos. E não preciso de você. E você também não precisa de mim. Eu, para você, não passo de uma raposa igual a cem mil raposas. Mas, se você me domestificar, teremos necessidade um do outro. Você será para mim único no mundo. Eu serei para você única no mundo..."
"Só se conhecem as coisas com que se criam laços — disse a raposa. — Os homens não têm mais tempo de conhecer nada. Compram as coisas feitas nas lojas. Mas, como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se você quer um amigo, me domestique."
Os diálogos do Pequeno Príncipe com a raposa certamente são os mais compartilhados em redes sociais. Por se tratarem de temas tão delicados e tão universais como o cultivo de amizade e o aprofundamento afetivo das relações, possuem um lugar de destaque na reflexão sobre o quanto temos nos entregado ou negligenciado aqueles presentes em nossos círculos afetivos.
"Eis meu segredo. É muito simples: não se vê bem a não ser com o coração. O essencial é invisível aos olhos."
" — Os homens daqui — disse o pequeno príncipe — cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim... e não encontram o que procuram...
— Não encontram — Respondi eu...
— E no entanto poderiam encontrar o que procuram numa única rosa ou num pouco de água...
— Certamente — respondi eu.
E o pequeno príncipe acrescentou:
— Mas os olhos são cegos. É preciso procurar com o coração."
Essencial
"O essencial é invisível aos olhos" com certeza uma das citações mais famosas do livro. Um verdadeiro enaltecimento ao subjetivo e ao abstrato, comum a outras passagens, também muito belas. A obra mira em cheio ao mundo interior, tantas vezes deixado de lado em um mundo que se apresenta objetivo e materialista.
Saudosismo
" — As estrelas são belas por causa de uma flor que não se vê...
Respondi "certamente" e fitei, sem falar, as ondulações da areia ao luar.
— O deserto é belo — acrescentou ele.
E era verdade. Sempre amei o deserto. Senta-se numa duna de areia. Não se vê nada. Não se ouve nada. E no entanto alguma coisa brilha em silêncio...
— O que embeleza o deserto — disse o pequeno príncipe — é que ele esconde um poço em algum lugar..."
Da última vez que li esse livro, chorei. A forma como ao final são desenhadas as metáforas de recordação realmente me comoveram. Me fizeram lembrar desse mecanismo, de ter uma memória ao se ver algo semelhante a algo anterior, e de como isso pode ser sensível quando existe afeto ou saudade de algo, uma época ou alguém. Esse tom nostálgico é capturado brilhantemente para dar fechamento à obra.
Eternamente Responsável
" — É o tempo que você perdeu com sua rosa que torna sua rosa tão importante.
(...) — Os homens esqueceram essa verdade — disse a raposa — Mas você não deve esquecê-la. Você fica responsável para sempre pelos laços que cria. Você é responsável por sua rosa..."

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