Eternamente Responsável

Em outubro do ano anterior, comprei uma edição em capa dura do livro O Pequeno Príncipe pela Amazon (você pode comprar essa mesma edição e apoiar esse blog por meio desse link).


Esse clássico fez parte da minha infância. Lembro que o conheci ainda jovem, por causa da minha mãe. Lembro de ainda criança ter assistido ao live action de 1974, e ter feito provas escolares com trechos de capítulos. Na adolescência, li uma versão em pdf e contemplei a bela adaptação em animação computadorizada, de 2015, o que me lembra automaticamente de duas faixas selecionadas para os trailers, a comovente versão de Somewhere Only We Know de Lily Allen, e a dócil Salvation, de Gabrielle Aplin

Em abril desse ano, a obra completará seus 80 anos. Com 4/5 de século passados em relação à publicação original, segue bem contextualizada na atualidade. O Pequeno Príncipe trata de temas universais, como o amor, a inocência, a saudade e os vínculos, e também toca em temas contemporâneos, como a financeirização da vida, a aceleração do tempo e a liquidificação das relações.


Eu amo como esse livro consegue unir passagens tão singelas com significados tão profundos. Durante minha última leitura, anotei aquelas que chamaram mais minha atenção.

A Singularidade

"Palavra parece gente. Não tem sinônimo que dê conta de uma diferença muito especial que é própria de cada uma delas."
(Angela-Lago, Prefácio)

Essa sentença, logo no início do livro, ainda no prefácio, traz uma ótima comparação. Como escritor e um apreciador das peculiaridades individuais, tenho muita atenção para com a capacidade que cada palavra tem de expressar algo à sua forma e que cada pessoa tem de ser e agir. Embora haja no mundo uma tentativa de bloquear uma postura narcísica a partir do pensamento de "Você não é especial", acredito muito, ao contrário disso, que cada um de nós pode encontrar grande valor em ser original e insubstituível.

Jovem demais para saber amar

"No momento eu não soube compreender. Devia tê-la julgado por seus atos e não por suas palavras. Ela me perfumava e me iluminava. Eu nunca devia ter fugido! Devia ter adivinhado sua ternura por trás de suas pobres artimanhas. As flores são tão contraditórias! Mas eu era jovem demais para saber amá-la."

Essa passagem discorre muito bem sobre relações românticas. Sobre a dificuldade de entendermos de pronto seus momentos, a maneira como apenas as atitudes revelam a verdade, e a presença do contraditório. Acredito que à medida que crescemos, com maior experiência e autoconhecimento, nos tornamos mais maduros para amar (ao menos, assim espero). Cruzar esse caminho tem seus golpes, verdade seja dita, quando se é muito jovem para que haja clareza na direção a tomar dentro dele.

Mercantilização da vida

"– Ah! Estrelas?
– Isso, isso mesmo. Estrelas.
– E o que faz com quinhentos milhões de estrelas?
– Quinhentos e um milhões, seiscentos e vinte e dois mil, setecentos e trinta e um. Eu, eu sou sério, sou exato.
– E o que você faz com essas estrelas?
– O que faço?
– Sim.
– Nada. Possuo as estrelas.
– Você possui as estrelas?
– Sim.
– Mas já vi um rei que…
– Os reis não possuem. Eles “reinam” sobre. É muito diferente.
– E para que serve possuir estrelas?
– Serve para ser rico.
– E para que ser rico?
– Para comprar outras estrelas, se alguém encontrar.
"Este" disse o pequeno príncipe consigo mesmo, "raciocina um pouco parecido com meu bêbado".
No entanto, ele fez mais perguntas:
– Como se podem possuir as estrelas?
– De quem são elas? – replicou o homem de negócios, ranzinza.
– Não sei. De ninguém.
– Então são minhas, pois pensei nisso primeiro."

Essa também é uma que considero bastante emblemática. O capítulo, em especial ao fim, carrega uma crítica bastante direta àqueles que se apropriam de tudo e transformam tudo em mercadoria. Ao lado de outros vícios apresentados, como o da vaidade e presunção de controle, está posta a ganância, que na modernidade, ganha um status privilegiado, quase como a de um pecado desejável. Sério, exato.

Aceleração do tempo

"As ordens não mudaram — disse o acendedor. — Este é o drama! O planeta tem girado cada vez mais rápido, de ano em ano, e as ordens não mudaram." 

 

Acredito que esse diálogo possa estar fazendo cada vez mais sentido à medida que o desenvolvimento tecnológico acontece. Embora as atividades se tornem cada vez mais automatizadas, não descansamos mais. Pelo contrário, o avanço técnico traz também um aumento da pressão produtiva: se agora o conhecimento e os instrumentos são mais acessíveis, o padrão de qualidade se tornou mais rígido e a expectativa de entrega maior. É bizarro observar que, no lugar de possibilitar tornar o homem mais humano, esse avanço, não raro, o torna mais próximo aos objetos mecânicos que manipula.


Solidão contemporânea


"— Onde estão os homens? — por fim retomou o pequeno príncipe. — É um pouco solitário no deserto...

— É solitário também entre os homens — disse a serpente."


Um dos temas mais retomados ao se tratar de Pequeno Príncipe são as relações interpessoais, englobando a consolidação de vínculos e a responsabilidade afetiva. Mais uma vez bastante atual, alguns trechos me recordam justamente a mensagem encerrada na música Modern Loneliness, de Lauv:

 

"Modern loneliness, we're never alone
But always depressed, yeah
Love my friends to death
But I never call and I never text, yeah" 

"Solidão moderna, nós nunca estamos sozinhos
Mas sempre depressivos, sim
Amo meus amigos até a morte
Mas eu nunca faço uma ligação e nunca envio mensagens, sim"

Quão comum a ideia de "rodeado, porém solitário". Muito das dinâmica das relações também está baseada em consumo — em como podemos e quais de nós podemos nos mover em direção ao que está socialmente colocado. Ideias de que as relações estão líquidas, que são mais superficiais, que o networking está matando a amizade, também compõem uma análise frequente em nosso tempo.


Laços


"Você, para mim, ainda não passa de um menino igual a cem mil meninos. E não preciso de você. E você também não precisa de mim. Eu, para você, não passo de uma raposa igual a cem mil raposas. Mas, se você me domestificar, teremos necessidade um do outro. Você será para mim único no mundo. Eu serei para você única no mundo..."

"Só se conhecem as coisas com que se criam laços — disse a raposa. — Os homens não têm mais tempo de conhecer nada. Compram as coisas feitas nas lojas. Mas, como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se você quer um amigo, me domestique."


Os diálogos do Pequeno Príncipe com a raposa certamente são os mais compartilhados em redes sociais. Por se tratarem de temas tão delicados e tão universais como o cultivo de amizade e o aprofundamento afetivo das relações, possuem um lugar de destaque na reflexão sobre o quanto temos nos entregado ou negligenciado aqueles presentes em nossos círculos afetivos.


"Eis meu segredo. É muito simples: não se vê bem a não ser com o coração. O essencial é invisível aos olhos."

 

"    — Os homens daqui — disse o pequeno príncipe — cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim... e não encontram o que procuram...

    — Não encontram — Respondi eu...

    — E no entanto poderiam encontrar o que procuram numa única rosa ou num pouco de água...

    — Certamente — respondi eu.

    E o pequeno príncipe acrescentou:

    — Mas os olhos são cegos. É preciso procurar com o coração."

 

Essencial


"O essencial é invisível aos olhos" com certeza uma das citações mais famosas do livro. Um verdadeiro enaltecimento ao subjetivo e ao abstrato, comum a outras passagens, também muito belas. A obra mira em cheio ao mundo interior, tantas vezes deixado de lado em um mundo que se apresenta objetivo e materialista.

Saudosismo


" — As estrelas são belas por causa de uma flor que não se vê...

Respondi "certamente" e fitei, sem falar, as ondulações da areia ao luar.

— O deserto é belo — acrescentou ele.

E era verdade. Sempre amei o deserto. Senta-se numa duna de areia. Não se vê nada. Não se ouve nada. E no entanto alguma coisa brilha em silêncio...

— O que embeleza o deserto — disse o pequeno príncipe — é que ele esconde um poço em algum lugar..."


Da última vez que li esse livro, chorei. A forma como ao final são desenhadas as metáforas de recordação realmente me comoveram. Me fizeram lembrar desse mecanismo, de ter uma memória ao se ver algo semelhante a algo anterior, e de como isso pode ser sensível quando existe afeto ou saudade de algo, uma época ou alguém. Esse tom nostálgico é capturado brilhantemente para dar fechamento à obra.


Eternamente Responsável


" — É o tempo que você perdeu com sua rosa que torna sua rosa tão importante. 

(...) — Os homens esqueceram essa verdade — disse a raposa — Mas você não deve esquecê-la. Você fica responsável para sempre pelos laços que cria. Você é responsável por sua rosa..."

 

E, para encerrar essa postagem, mais uma das frases mais citadas do livro e também refletida: "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativa", que enfatiza a dimensão de responsabilidade com aquilo com que criamos laços. 

Há quem crie caso com essa sentença por interpretar erroneamente que se trata de uma oposição à ideia de desapego, que também é um valor necessário para se atravessar a vida. Com todo o teor abstrato e subjetivo que ronda a narrativa inteira, considero a afirmação totalmente compatível com esse valor. 

O lugar do eterno é um não lugar. A responsabilidade eterna pelo que se cativa supera o físico ou material, se estende à história e às memórias que fazemos com quem nos acompanha, que sobrevivem no amor procriado ao longo das eras. Na minha visão, o perdurar aqui não se trata do se possuir, mas do verdadeiramente se tocar (o que, com clareza, é fruto de um trabalho, algo pelo qual, em definitivo, assumimos responsabilidade).

O Pequeno Príncipe segue sendo, fácil, um dos meus livros preferidos. Suas mensagens e seu modelo simples e inocente são certeiros, encantadores e relaxantes. Ao nos inserir em uma atmosfera de infância e questionadora, nos põe de frente à reflexões que eu chamaria de humanamente caras. Sem mais, é um livro cativante, que admiro e recomendo a qualquer um que tenha interesse de viajar e se sensibilizar com esse pequeno e querido habitante do asteroide B 612.

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